propriedade: Essência do Vinho
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Apresentação

EDITORIAL W69

EU JÁ ASSINEI!

A notícia caiu nas últimas semanas como um murro no estômago, sobretudo para os produtores de vinho europeus e do Chile e até mesmo para os enófilos brasileiros mais exigentes. O Brasil está seriamente a ponderar uma medida de salvaguarda sobre os vinhos importados, algo que, a concretizar-se, significará um aumento muito considerável do preço a que o vinho importado chega ao Brasil (já nada meigo) podendo igualmente resultar no estabelecimento de quotas máximas de importação por origem. Circula ainda a informação que aponta para a possibilidade de Brasília exigir uma licença de importação que deverá ser requerida antes do embarque da mercadoria, obrigando a um acréscimo de burocracia e a um prazo mais alargado de resposta (60 dias contra a média atual de cinco a oito dias).

É claramente uma medida de caráter protecionista, que resulta sobretudo da forte pressão dos produtores de vinho brasileiro junto do Governo de Dilma Rousseff e, por outro, do imparável crescimento da economia brasileira, com o Executivo de Brasília a tentar travar a entrada no país de produtos importados, tal como, aliás, já o fez com outros setores de atividade.

A medida de salvaguarda, que a ser aprovada nunca vigorará por menos de três anos, parece-me simplesmente disparatada. Os brasileiros (quase 200 milhões de consumidores) registam ainda um valor muito baixo de consumo de vinho, cerca de dois litros/ano. De igual modo, embora esteja a crescer em quantidade e qualidade, a produção de vinhos no Brasil não se poderá comparar, sobretudo em qualidade, à de outros países, nomeadamente europeus - não se trata de uma questão de tecnologia ou acesso a conhecimento, apenas e só de clima e condições de viticultura. A tudo isto junta-se ainda o facto de quase 80% do valor que cada consumidor paga pelo produto final chamado vinho importado ser carga fiscal. E nem valerá a pena debater a justeza de uma medida que se afigura cega, seja para os vinhos tranquilos seja para os fortificados (Vinho do Porto e Vinho Madeira, por exemplo, que simplesmente o Brasil não produz nem poderá produzir).

A discussão acerca dos méritos e perigos desta medida de salvaguarda promete continuar a dar pano para mangas e parangonas nos jornais. Pelo conhecimento que tenho do mercado brasileiro, caso o cenário se concretize será penoso para quem tem no Brasil destino importantíssimo de exportação (casos de países como Chile, líder de mercado e fora do Mercosul, Itália, Portugal, Espanha e até França, cada vez mais apostada em ali vender os seus vinhos). Será ainda altamente prejudicial para a educação e formação de um novo público consumidor de vinhos, que cada vez mais quer ter acesso a vinhos de diferentes proveniências, que escapem ao mainstream sul-americano. E o consumidor brasileiro, quando se interessa por algo, estuda, investiga, quer experimentar e saber cada vez mais.

Fico pois na expetativa de perceber qual a efetiva reação do setor do vinho, não só em Portugal como na própria Europa. O ideal seria uma resposta imediata, conjunta, integrada, assertiva e firme, usando todos os canais diplomáticos ao dispor. A bem de todos, empresas e consumidores brasileiros.

Por enquanto, vai circulando na Internet uma petição pública que contesta esta medida:
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=P2012N22143


Não faço ideia o que o leitor fará, mas eu já assinei!


NUNO GUEDES VAZ PIRES
Diretor Executivo

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