AMIÚDE, OUVIMOS QUEIXAS sobre a “internacionalização” dos vinhos, escutamos lamentos de que “cada vez mais os vinhos são todos iguais” ou que “a maioria dos vinhos pode ser de qualquer origem”. Ocorre também uma determinada casta ficar na moda e parecer, de repente, que todos os vinhos passaram a fazer-se com essa casta, seja em Portugal, Espanha ou na Califórnia. Touriga Nacional? Tempranillo? Chardonnay? Sim, mas também há uma parte da história de que nos esquecemos, geralmente, e que não pode englobar-se neste grupo. Trata-se de vinhos muito originais, únicos no seu género, mas que é frequente passarem totalmente despercebidos. O problema é que, quase sempre, concentramo-nos nos tintos, normalmente nas novidades que ganham as provas, vinhos apelativos e exuberantes, na maioria dos casos da última colheita, que ainda não estão prontos para beber, que são demasiado jovens… mas não nos podemos esquecer da grande diversidade que não deveríamos perder.
Trata-se, normalmente, de produções especiais, vinhos fortificados ou generosos, doces ou não, com uma produção cara e que não se encaixam nos parâmetros da moda. Recordemos o já tristemente desaparecido Bastardinho de Azeitão (não hesitem em comprar qualquer garrafa que possam encontrar). E sem esquecer os velhos moscatéis de Setúbal brancos. Merece a pena salientar o Moscatel Roxo, de uma raríssima casta que apenas existe na dita península, um pouco na Alsácia (Muscat Rosé à Petit Grains), em Itália e pouco mais, mas cujos únicos vinhos que conhecemos são realmente os portugueses. Embora se produzam vinhos com borbulhas em todo o País, mencionaremos o Vértice, um espumante improvável produzido no Douro pelas Caves Transmontanas, impecavelmente elaborado segundo o método “champenoise”, mistura de castas, brancas e tintas (incluindo Touriga Nacional!), mas que parece ir aumentando a percentagem de Gouveio. E já que mencionámos esta casta, atenção ao potencial da Gouveio, uma casta que tanto em Espanha (chamada “Godello”) como em Portugal começa a ser encarada com muita seriedade. Também no Douro, mas passando aos vinhos doces, encontramos os Moscatéis de Favaios ou os praticamente desaparecidos (ainda existem?) doces de Carcavelos na Estremadura que, a dado momento da história, se tornaram quase míticos. Um dos grandes tesouros de Portugal são os escassíssimos Madeira Vintage das castas tradicionais Malvasia, Boal, Terrantez, Verdelho e Sercial, das quais restam, a duras penas, uma centena de hectares em toda a ilha, e que desfrutam de um século (não estamos a exagerar!) de envelhecimento. Totalmente ignorados e em perigo de extinção, claro está. E passando aos vinhos de mesa, quando foi a última vez que tropeçou num desses Colares ferozmente taninosos, da casta Ramisco cultivada em praias próximas de Lisboa, com necessidade de passar várias décadas em garrafa para serem bebíveis? Nunca? E os brancos da Bairrada? Tivemos a sorte de beber recentemente duas colheitas diferentes do Garrafeira da Quinta das Bágeiras. E não foi propriamente a última colheita… Brancos para guardar e beber com 10 anos. Terrivelmente minerais, incisivos, com notas que nos transportam ao vale do Loire, boa acidez, frescos, com uma enorme personalidade.
A longevidade dos vinhos do Hotel Palace do Buçaco, brancos e tintos, que resultam frequentemente duma mistura de Dão e Bairrada, são infelizmente difíceis de encontrar, a não ser no próprio hotel, mas aí pode desfrutar-se de uma impressionante colecção de colheitas, viajando-se no tempo ao longo de décadas. E tudo isto sem sequer mencionar os Vinhos do Porto, que são um mundo só por si: brancos secos ou não, Ruby, Tawny, Colheita, Garrafeira – o “Borgonha” dos Portos? Produzidos pela Niepoort, a única casa que conserva este estilo, primeiro envelhecido em casco e depois em garrafas de cristal durante decénios – Crusted, LBV, Vintage… São todos iguais? Ainda bem que não!
Luis Gutiérrez | blue Wine 13